“Eu só notava que estava sem respirar quando meus pulmões ardiam, meus olhos lacrimejavam e eu me sentia um balão de ar prestes a explodir. Me senti estúpido também. Aquela reação exageradamente idiota sempre acontecia quando ela sorria pra mim. Ela. A garota de cabelos negros que tinham cheiro de morango e eram visivelmente afagáveis. Ela, que tinha olhos grandes e apreensivos, e, no entanto, tão doces. Doce daquele que não enjoa. Agridoce. Ela estava no meu pensamento em todo lugar com uma freqüência maior que a normal. Na aula insuportável de química, no jantar silencioso com a minha mãe, nas ruas densamente povoadas e na música que meus fones transportavam no último volume aos meus ouvidos. Eu passara a ouvir todas as preferências musicais dela, e vou confessar, não eram ruins. Fazia quase um mês. Especificamente 27 dias, que ela me perturbava. Não no sentido literal, ou talvez sim. 27 dias que abandonei meu machismo ultrapassado para adquirir essa mania de guardar datas. Eu odiava acordar cedo, mas ela me provocava sensações gostosas e nada era melhor do que acordar atrasado e ir voando para o ponto de ônibus, pra ganhar o sorriso dela. Eu me tornei desajeitado com esse tipo de coisa, sem saber o que esperar. Mas no fundo nem adiantava, ela sempre me surpreendia. Eu disse, sempre. Quando acontecia o que esperava era sempre diferente. Tudo com ela era diferente! Até o sorvete de chocolate ás 16:38 daquela tarde ensolarada, foi perfeito demais pra ser verdade. Não tinha nada a ver com a meteorologia do dia, com o sabor do sorvete ou o parque tão verde. Era ela, aquela risada gostosa ecoando nos meus ouvidos ou até a nossa risada misturada, difundida no ar. Depois de 11 dias eu não me importava se pagava de fofo ou se pesquisava tudo o que ela curtia para impressioná-la. Meu objetivo me cegava, e não se tratava de mais um desejo egoísta meu, era tudo pra permanecer do lado dela. Naquela noite fazia mais frio que o normal e foi estranha a minha vontade de vê-la dormir. Encolhida, debaixo de trocentas cobertas só porque ela era frienta. Naqueles dias frios ela ficava linda de moletom. Deixei escapar entre uma de nossas conversas instigantes embaixo da árvore velha da escola naquela manhã chuvosa de quarta feira e arranquei um rubor rosa das bochechas dela e duas covinhas num sorriso tímido, seguidos de um obrigado quase inaudível. Eu pensei que meu coração iria parar ali mesmo e se parasse, eu não me importaria. Eu andava feliz demais e eu não me sentia assim fazia tempos. Não queria parar, nunca. Acordei com um barulho atordoante e estridente machucando os meus tímpanos e a tela do meu celular me mostrava sonecas adiadas umas 7 vezes. 07:14AM. Merda! Procurei com olhos entreabertos a roupa e me vesti rapidamente, enfiei tudo da mochila, escovei os dentes e voei pra fora de casa. Juro que eu parecia não chegar. Meus músculos doíam e minha circulação latejava nas minhas veias. Cheguei na esquina, desacelerando o passo e meu organismo me acompanhou. Com exceção de um órgão que pulsava insistente no meu peito, garganta e quase saía pela boca. Ela estava ali. E eu quase fiz uma prece de agradecimento.
— Acordou tarde, né? — Ela sorriu, eu repeti o gesto.
— Nada disso, só me atrasei. — Esqueci que eu não sabia mentir, droga.
— E essa cara de sono? — Ela ergueu uma sobrancelha em desafio.
— É normal pela manhã. — Porque eu tava insistindo mesmo?
— Sei.
Ficamos em silêncio até o ultimo ônibus passar. Cedi o banco vazio para ela. Cavalheirismo me deixava bobo.
— Chegamos atrasados. — Ela concluiu depois de uma vistoria rápida no pátio vazio.
— Então, é melhor você correr. — Eu sugeri, me arrependendo imediatamente. Eu não queria ficar sem ela. Nem por três horários.
Ela se pôs na ponta dos pés e tocou meus lábios com uma suavidade vítrea e desapareceu pelos corredores.
Meio pasmo, meio incrédulo, meio — Caralho! Eu busquei meu bloquinho na bagunça da minha bolsa. E escrevi em linhas tortas:
— 25, Mai, 2012. Ela me beijou, porra!”
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Se não eu, quem vai fazer você feliz? Guerra! Gabriela L. {T-rapeze}
“E por mais forte que você seja, por mais determinação que você tenha pra esquecer aquilo, chega uma hora que você sente falta, sente vontade de botar o orgulho de lado e dizer a ela que apesar da distância o amor continua igual.”
~ Tati Bernardi.
“De alguma forma, eu encontrei uma maneira de me perder em você”
~ Three Days Grace